Arquitetura hostil: o design das grandes cidades brasileiras

Por SOMOS Educação

O termo “arquitetura hostil” (“hostile architeture”, em inglês) foi cunhado em junho de 2014 pelo repórter Ben Quinn no jornal britânico The Guardian. Em matéria, ele discorreu a respeito de como o desenho urbano tem influenciado o comportamento e o convívio das pessoas nas cidades, criticando como a abordagem ao mesmo busca excluir pessoas em situação de rua dos centros urbanos.

Recentemente, a prefeitura de São Paulo instalou blocos de paralelepípedo debaixo do viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida. A medida foi classificada como ‘higienismo’, ou seja, uma forma de evitar a presença de pessoas em situação de rua no viaduto na avenida Salim Farah Maluf, na zona leste da capital paulista.

A notícia reacendeu o debate sobre arquitetura hostil e suas implicações nas grandes cidades brasileiras. 

Arquitetura excludente

Na reportagem de Ben Quinn, ele cita o historiador especializado em arquitetura Ian Borden. Segundo o especialista, a emergência deste estilo de arquitetura hostil data da década de 1990, nas gestões de um desenho urbano que sugere “que só somos cidadãos se estamos trabalhando ou consumindo bens diretamente”. Ou seja, não trabalhar e não ser um cidadão consumidor significa não poder estar presente como cidadão de uma cidade.

“Por isso é aceitável, por exemplo, ficar sentado, desde que você esteja num café ou num lugar previamente determinado onde podem acontecer certas atividades tranquilas, mas não ações como realizar performances musicais, protestar ou andar de skate”, complementou o historiador. 

Isso evidencia o fato de que as cidades não abrem espaços nem conforto para as pessoas nas ruas, reforçando as desigualdades estruturais na sociedade. 

Exemplo de arquitetura hostil

“Quando a arquitetura se reveste de formas limitadoras – visuais, físicas e sociais – essa arquitetura é hostil”, afirmam Shayenne Barbosa Dias e Cláudio Roberto de Jesus, do programa de pós-graduação em estudos urbanos e regionais UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), na revista acadêmica Geografias. De acordo com os autores, à medida em que a arquitetura hostil afasta pessoas deixando áreas desertas, retroalimenta-se a sensação de insegurança urbana.

Nas ruas

O estudo “Estimativa da População em Situação de Rua no Brasil”, que utilizou dados de 2019 do censo anual do Sistema Único de Assistência Social (Censo Suas) e conta com informações das secretarias municipais, e do Cadastro Único (CadÚnico) do governo federal, constatou que a maioria dos moradores de rua (81,5%) está em municípios com mais de 100 mil habitantes, principalmente das regiões Sudeste (56,2%), Nordeste (17,2%) e Sul (15,1%). 

Pessoa em situação de rua. (Foto por Luiz Souza/NurPhoto via Getty Images)

“O tamanho do município, bem como seu grau de urbanização e de pobreza estão associados ao número de pessoas morando nas ruas, o que indica a necessidade de políticas públicas adequadas a essas cidades”, assinala o sociólogo e pesquisador do Ipea Marco Antônio Natalino, autor do trabalho.

Fotos: Divulgação/ Reprodução / Getty Images

REFERÊNCIAS

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2021/02/03/O-que-%C3%A9-arquitetura-hostil.-E-quais-suas-implica%C3%A7%C3%B5es-no-Brasil

https://www.archdaily.com.br/br/888722/arquitetura-hostil-a-cidade-e-para-todos

https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=35811

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