De Simone de Beauvoir a Lacan: o que compravam os ilustres clientes de uma livraria em Paris?

Por SOMOS Educação

Na primeira metade do século XX, Paris representava um refúgio para os intelectuais da época, que faziam da cidade um ponto de encontro. Um dos lugares mais frequentados por autores ilustres era a histórica livraria Shakespeare and Company. Fundado em 1919, o estabelecimento dedicava-se, e ainda se dedica, à venda de livros em língua inglesa, em um momento difícil de conseguir a um preço razoável.

Graças ao trabalho de pesquisadores da Universidade de Princeton (EUA), comandado pelo professor Joshua Kotin, em um estudo nomeado de Projeto Shakespeare and Company, temos acesso a detalhes de compras de alguns clientes ilustres da livraria. Os cientistas vasculharam os arquivos digitalizados da loja pela Internet. 

Por meio desses dados, os pesquisadores revelam os gostos literários de alguns dos grandes escritores que costumavam frequentar a loja, como Gertrude Stein, James Joyce, Ernest Hemingway, Aimé Césaire, Simone de Beauvoir, Jacque Lacan e Walter Benjamin.

Clientes ilustres, leituras refinadas

O serviço da livraria Shakespeare and Company se apresentava como algo único. Por oito francos e outros sete de depósito era possível solicitar um livro em empréstimo, ou dois se a cifra subisse para 12 francos. O tempo máximo de leitura permitido era de duas semanas para as publicações mais antigas e uma semana para as mais recentes. 

Os preços da livraria / SHAKESPEARE AND COMPANY PROJECT

De acordo com papéis escritos a mão, é possível verificar os nomes dos clientes e os livros solicitados em empréstimo. Confira as solicitações de alguns clientes renomados:

– Hemingway levou, entre as 90 publicações anotadas em sua ficha, as memórias de Joshua Slocum, Sailing Alone Around the World (“navegando sozinho ao redor do mundo”, 1900), ou inclusive um exemplar de um dos seus próprios livros, Adeus às Armas (1929). 

– Stein, por sua vez, leu a novela romântica A Love in Ancient Day (“um amor na antiguidade”, 1908), de Truda H. Crosfield, e a fantasia Equality Island (“ilha da igualdade”, 1919), de Andrew Soutar.

Estantes da livraria SHAKESPEARE AND COMPANY

– Benjamin pegou um dicionário alemão-inglês e The Physical and Metaphysical Works of Lord Bacon (“as obras físicas e metafísicas de lorde Bacon”, 1853), este último pouco antes de seu suicídio, em setembro de 1940, quando a polícia espanhola lhe comunicou que o entregaria à Gestapo. 

– Lacan aproveitou o serviço para pedir um obscuro livro sobre a história da Irlanda durante sua leitura de Joyce.

– Claude Cahun, sob o nome de Mlle Lucie Schwob, dedicou-se às obras de Henry James.

Se os clientes atrasavam a devolução, a política era a seguinte: entregar ao infrator um desenho que retratava Shakespeare arrancando os cabelos.

Hoje, o histórico de empréstimos desses escritores pode ser consultado livremente na página do projeto, com buscas por cliente ou por livro. Para o professor Kotin, coordenador do projeto, a grande quantidade de material consultado demonstra uma semelhança com nossos hábitos atuais. “Comparo suas leituras com nosso tipo de consumo: podemos ler romances e poemas sofisticados, mas ainda vemos coisas na Netflix.”

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Fotos – Divulgação


Referências

https://brasil.elpais.com/cultura/2020-05-19/que-livros-compravam-simone-de-beauvoir-joyce-hemingway-e-lacan-em-paris.html?ssm=whatsapp&fbclid=IwAR1g0VnNJlbkid7w8ArX1CfVCa4FNYdHr2e-dm714HwzD-KEkrC0XGXMH48

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