O dilema das escolas em 2020: aprovar ou reprovar todos os alunos?

Por SOMOS Educação

O ensino remoto, alternativa para muitas escolas durante a pandemia, não foi acessível para todos os estudantes brasileiros. Em especial nas famílias mais pobres.  Problemas de conexão à internet, por exemplo, impediram que crianças e jovens acompanhassem atividades on-line neste período. 

Desse modo, surge o dilema principalmente para as escolas que enfrentaram essa dificuldade: aprovar ou reprovar os estudantes em 2020? Por exemplo, se todos forem aprovados automaticamente, como lidar com as lacunas deixadas por meses sem contato com os professores?

O que fazer com os alunos em 2020?

Segundo parecer do Conselho Nacional da Educação (CNE), órgão do Ministério da Educação (MEC), a recomendação é rever os métodos de avaliação e adotar medidas que “minimizem a retenção escolar”, já que “os estudantes não podem ser mais penalizados ainda no pós-pandemia”.

Neste cenário, há diferentes posicionamentos de educadores dentro de cinco sugestões:

  1. aprovar todos os estudantes;
  2. permitir a reprovação apenas nas escolas particulares, onde houve acesso ao ensino remoto;
  3. cancelar o ano letivo das escolas públicas e reprovar todos os seus alunos, para dar oportunidade de aprenderem de fato em 2021;
  4. juntar os anos letivos de 2020 e 2021, pensando em reprovação só no fim do biênio;
  5. avaliar cada caso individualmente.

Opiniões dos educadores

1. ‘Todos aprovados automaticamente’

“Reprovação? Nem pensar. É uma situação inusitada, seria muito injusto. Fechamos as escolas em março, no começo do ano letivo – não houve nem tempo de conhecer os alunos. Como vou avaliar o que aprenderam?”, questiona Raquel Lazzari, professora na Faculdade de Educação da Unesp de Assis (SP), em reportagem ao G1. 

“Alguns sequer tinham computador ou internet. E, mesmo em escolas particulares, não acho certo reprovar. Foi um período muito diferente para alunos e professores.”

Marcia Sigrist Malavasi, docente da Faculdade de Educação da Unicamp, concorda. “Ninguém deve ser reprovado durante a pandemia. É inadequado, irresponsável. Não temos a menor possibilidade de ver quais as condições da criança ou do jovem em casa”, diz.

“O momento é de planejar o que vai ser feito na retomada, para recuperar o que não foi absorvido. Não é hora de pensar em aprovar ou reprovar alguém.”

As especialistas reforçam que a retenção já era uma medida discutível antes da pandemia. Segundo Lazzari, o aluno que repete de ano corre maior risco de perder o interesse pelos estudos e de abandonar a escola.

2. ‘Alunos das particulares tiveram aula on-line. Podem ser reprovados’

Segundo coordenadores e diretores de escolas privadas, seus alunos têm condições financeiras privilegiadas, que lhes permitem acompanhar o ensino remoto sem dificuldade. Fora problemas pontuais com internet instável ou falta de luz, todos tiveram acesso a aulas e avaliações on-line durante a pandemia.

Portanto, caso não atinjam o desempenho esperado, podem, sim, ser reprovados na visão das instituições particulares.

Alunos de escola particular têm privilégios que alunos de escola pública muitas vezes não têm

“Temos segurança em dizer que a aprendizagem está preservada para os nossos estudantes. Seremos flexíveis, porque foi um ano atípico, mas não vamos passar todos de ano”, diz Renato Júdice, diretor de uma das unidades do Colégio Rio Branco, em São Paulo.

3. ‘Ano letivo cancelado nas escolas públicas. Tecnicamente: todos reprovados’

De acordo com Ivan Gontijo, coordenador de projetos do Todos Pela Educação, os prejuízos do fechamento das escolas não serão reparados em apenas um ou dois anos.

“Alguns alunos conseguiram se adaptar, mas a maioria teve dificuldade. Nossa proposta é reprovar todos os estudantes mais pobres, uma espécie de reprovação automática nas escolas públicas. É um jeito de recuperar o tempo perdido, sem deixar ninguém para trás ou aumentar a desigualdade”, afirma.

“A solução de aprovar todo mundo é complicada. Existem direitos de aprendizagem. Você não pode aprovar uma criança que não aprendeu nada. O ano letivo teria de ser cancelado.”

Segundo o especialista do Todos Pela Educação, a reprovação automática não seria aplicável em colégios particulares. “Se todos receberam conteúdo de forma adequada, dá para criar uma lógica de avaliação, porque estão partindo de condições semelhantes. Aí, sim, pode fazer sentido pensar em reprovar ou aprovar cada estudante”, defende o especialista.

4. ‘Juntar os anos letivos nas escolas públicas. Reprovação, só em 2021’

No Espírito Santo, o ano letivo de 2020 será unido ao de 2021. Por isso, os alunos só poderão ser reprovados no fim do biênio.

“Não existe motivo para reprovar no meio desse percurso. Assim como ninguém, em um ano normal, é reprovado em julho”, diz Vitor de Angelo, secretário de educação do estado.

“Nenhuma opção é ótima, a defasagem vai ser realidade. Mas vamos organizar os alunos por níveis: dependendo do rendimento, terão interferências pedagógicas diferentes em 2021. Até podem ser aplicadas avaliações, mas sem a possibilidade de reprovar alguém em 2020. Mesmo querendo, todos tiveram condição de estudar? Há fatores sociais e econômicos que podem ter criado obstáculos.”

Os biênios só não serão válidos para os anos finais de cada etapa escolar: 5º e 9º ano do ensino fundamental, e 3º ano do ensino médio.

Nessas séries, aumentam os casos em que o aluno muda de escola e de rede (da municipal para a estadual) – e ficaria inviável juntar os currículos. Para corrigir possíveis defasagens, serão aplicadas ações de reforço a todos. Ninguém será reprovado.

5. ‘Reprovação só para casos específicos’

Segundo Vitor Balthazar, secretário adjunto de educação na rede estadual de Santa Catarina, diz que a rede se estruturou para oferecer aos estudantes a possibilidade de estudar remotamente – seja por plataformas on-line ou por materiais impressos. Ainda assim, cerca de 3% dos alunos não foram atendidos.

Para decidir quem será aprovado no fim do ano, será organizado um painel com o histórico de cada um dos mais de 525 mil estudantes da rede, afirma a secretaria.

Serão retidos, segundo Balthazar, apenas aqueles que não participaram das aulas por opção, não por dificuldade. “Ainda assim, se isso ocorrer, vai ser uma exceção. Nossa prioridade é garantir o aprendizado”, diz.

Desafios para a educação em tempos de pandemia

Fotos: Divulgação

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REFERÊNCIAS

https://g1.globo.com/educacao/noticia/2020/10/04/reprovar-todos-os-alunos-aprova-los-automaticamente-ou-discutir-cada-caso-veja-as-alternativas-das-escolas-no-ano-de-pandemia.ghtml

https://www.jj.com.br/ultimas/2020/10/104106-escolas-enfrentam-dilema-entre-reprovacao-de-todos-os-alunos–e-aprovacao-automatica.html

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