Os cinco livros infantis de Clarice Lispector

Por SOMOS Educação

Reconhecida pela crítica literária brasileira e estrangeira como uma das maiores escritoras do século 20, Clarice Lispector mudou os rumos da narrativa moderna com uma escrita muito pessoal, passando por diversos gêneros, do conto ao romance, da crônica à dramaturgia, da entrevista à correspondência e, também, pelas páginas femininas.

Mas o que pouca gente sabe é que a grande escritora brasileira também escreveu livros para o público infantil. Mais precisamente cinco. O primeiro deles foi uma “ordem” do seu filho, Paulo, quando ele tinha seis anos, como a própria escritora diz. Conheça abaixo um pouco mais sobre a obra:

O Mistério do Coelho Pensante (1967)

O sumiço de um simples coelhinho branco – quem diria! – inspira uma das mais instigantes histórias infantojuvenis de Clarice Lispector. Em “O Mistério do Coelho Pensante”, a escritora discorre sobre profundas questões existenciais, na dose certa para a apreciação dos pequenos leitores. Qual a diferença entre a natureza humana e a natureza de coelho? Como a gente sai do terreno da necessidade para o da vontade e da criatividade? É possível um pensamento que seja também um sentimento e uma sensação? Nesta obra, a reflexão se desenvolve de forma leve e divertida. Tudo começa quando o coelho Joãozinho consegue fugir misteriosamente da casinha deixando a todos – personagens, narradora e leitores – de orelha em pé.

A mulher Que Matou os Peixes (1968)

O segundo livro de literatura infantil é publicado em 1968 com o título de “A Mulher Que Matou os Peixes” e surge a partir de fato verídico: um de seus filhos lhe pede para alimentar os peixes na sua ausência, mas a mãe se esquece e os peixes morrem. Em entrevista ao Jornal da Tarde, no dia 5 de fevereiro de 1969, Clarice teria dito: “As coisas acontecem porque devem acontecer. Nunca pensei escrever livros para crianças. O primeiro surgiu de um pedido do meu filho Pauluca, há muitos anos, e o outro, de uma sensação de culpa da qual queria me redimir.”

A Vida Íntima de Laura (1974)

Com capa dura e ilustrações do premiado Odilon Moraes, o livro conta a história de Laura, a galinha que mais bota ovos em todo o galinheiro, mas que tem o pescoço mais feio do mundo e é “burra de dar dó”. Ele é casada com um galo presunçoso chamado Luís, que tem uma noção exagerado de sua influência sobre o sol. E ela tem pavor da ideia de ser morta. Compondo uma personalidade cheia de nuances para sua personagem, Clarice diverte os pequenos sem subestimar sua inteligência e perspicácia.

Doze Lendas Brasileiras. Como Nasceram as Estrelas (1977)

Clarice Lispector reflete sobre a riqueza e a importância das histórias da cultura popular no texto “A força do sonho”, que abre a nova edição de “Doze Lendas Brasileiras”. Escrito em dezembro de 1976, o texto foi incluído no calendário em que os contos foram publicados originalmente, em 1977, e permanecia inédito em livro. O livro reúne histórias do folclore nacional, uma para cada mês do ano, recontadas por uma das maiores escritoras do século 20. A história que dá nome ao livro, por exemplo, conta como, em uma aldeia indígena, travessos curumins deram origem a “gordas estrelas brilhantes”.

Quase de Verdade (1978)

Lançado postumamente, em 1978, “Quase de Verdade” tem como protagonista a força da fantasia e do pensamento na transfiguração da “realidade”. O livro se caracteriza pela radicalização do mergulho na linguagem e do questionamento de conceitos como realidade/fantasia, verdade/mentira, normalidade/mágica. “Pois não é que vou latir uma história que até parece de mentira e até parece de verdade?”, diz o narrador, Ulisses, que assegura: “sou um cachorro quase normal. Ah, esqueci de dizer que sou um cachorro mágico: adivinho tudo pelo cheiro: Isto se chama ter faro.” Nesta obra, marcada pelo traço autobiográfico, a história que Ulisses “late” para sua dona, Clarice, é apenas o ponto de partida para o mergulho num mundo fantástico.

Sobre a autora

Clarice nasceu em 1920, na Ucrânia, então uma das repúblicas da extinta União Soviética. De família judia, chegou ao Brasil com os pais e mais duas irmãs em 1922, sendo posteriormente naturalizada brasileira. Morou primeiro em Maceió e depois em Recife, onde passou a infância. Perdeu a mãe em 1930 e, cinco anos depois, o pai mudou-se com as filhas para o Rio de Janeiro. No Rio, Clarice formou-se em Direito, trabalhou como jornalista e iniciou sua carreira literária com o romance “Perto do Coração Selvagem”, em 1943. Viveu muitos anos no exterior, em função do casamento com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos, Pedro e Paulo. Clarice morreu em 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, um dia antes de completar 57 anos.

A escritora Clarice Lispector

Desde 1998 a Editora Rocco adquiriu os direitos de publicação da obra de Clarice Lispector, relançando todos os seus livros, inclusive os textos infantis e infanto-juvenis. É possível adquirir um box especial com os cinco livros reunidos.

Fotos: Depositphotos e Editora Rocco/Reprodução

 

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