Alfabetização na escola digital

Por Cibele Mendanha / Somos Educação

Seja em tempos de aulas presenciais, com as mediações e planos de intervenção planejados, seja em tempos de distanciamento social, com as crianças em casa já imersas no processo de alfabetização, cabem as perguntas: Como alfabetizá-las de forma significativa? Que tipo de mediação deve o educador fazer para garantir o avanço no processo de aquisição da escrita? Oferecemos textos ou palavras? Deixamos as crianças escrever “do jeito que sabe” ou escrevemos com ela?

Ainda outras questões perpassam nas reflexões dos educadores e das escolas: o que a criança lê durante o processo de alfabetização: letras, palavras ou textos? Qual deve ser o papel da família no processo de alfabetização? 

Em tempos de atividades não presenciais, criatividade, ludicidade, inovação, foco e observação atenta aos objetivos de aprendizagem são essenciais, como conceitos que fundamentam a prática de alfabetização numa inter-relação entre alfabetização e letramento: 

“A aprendizagem do sistema de escrita alfabética resulta da exposição das crianças a situações em que se leem e se escrevem textos que circulam nas práticas sociais. O sistema de escrita alfabética constitui em si um domínio cognitivo, um objeto de conhecimento com propriedades que o aprendiz precisa reconstruir mentalmente, a fim de usar, com independência, o conhecimento de relações letra-som, que lhe permitirá ser cada vez mais letrado.” (Mazé Nóbrega:2020)

As muitas facetas da alfabetização

Entendendo alfabetização como um processo de aquisição e domínio da leitura e escrita, etimologicamente e pedagogicamente, não podemos nos limitar a ampliar o conceito. O que precisamos é entender as muitas facetas que este processo envolve para definir as práticas e formas de aprendizagens pelas crianças.

Magda Soares retoma as facetas da alfabetização sob três categorias que pode nos indicar caminhos novos para pensar a alfabetização na escola digital: “o conceito de alfabetização, a natureza do processo de alfabetização e os condicionantes deste processo.” (SOARES:2016:15)

O conceito desse processo nos últimos tempos tem nos direcionado para pensar a alfabetização como aprendizagem da leitura e da escrita admitindo se estender por toda a vida. Porém, cabe aos alfabetizadores adentrar em cada um dos processos entendidos como leitura e escrita para conhecer as habilidades necessárias a serem desenvolvidas. “É preciso diferenciar um processo de aquisição da língua (oral e escrita) de um processo de desenvolvimento da língua (oral e escrita”). (SOARES:2016:15)

Exemplos que ilustram  

Para compreendermos melhor e nos situar na expectativa de responder a questão aqui colocada, vamos ilustrar com exemplos cada uma destas perspectivas. 

A. Luiza já sabe ler. Luiza já sabe escrever.

B. Luiza leu Érico Veríssimo. Luiza escreveu uma redação sobre o livro “Olhai os lírios do campo”.

No exemplo A, ler e escrever significa o domínio da mecânica de codificar e decodificar a língua escrita e oral. Ou seja, Luiza construiu e domina o código escrito, entende a relação letra/som e sabe grafar e identificar palavras escritas. No exemplo B, podemos dizer que Luíza domina o processo de compreensão e apreensão da língua enquanto expressão de significados visando à comunicação e aquisição de conhecimentos. 

Por que então estamos discutindo estas duas questões que, embora complementares ao processo de alfabetização, são distintas nas habilidades que os circundam? Estas habilidades e objetos de conhecimentos são ensinados e aprendidos na escola e fora dela, neste momento, no contexto de casa.

Maior a imersão, mais conhecimento

Quanto mais imersos nas leituras do cotidiano as crianças estiverem, mais conhecimentos construirão acerca da linguagem oral e escrita. Os textos que circulam socialmente abrem um leque de percepções acerca da escrita no que se refere à comunicação. Porém, as habilidades relacionadas ao processo de apreensão do código escrito (saber decodificar e codificar) são de propriedade da escola, tendo o professor como mediador.

Neste segundo caso, o desafio cresce em relação às propostas de vivências para as crianças. Não podemos nos responsabilizar por “alfabetizar” estas crianças em casa uma vez que dependemos da mediação técnica do professor. Mas, podemos e devemos promover interações com o alfabeto e com a mecânica da escrita para que as crianças pensem sobre ela numa relação direta e orientada.

Ensinar o código escrito significa entregar às crianças formas de pensar sobre quais letras usar, sobre a movimentação destas letras para formar outras palavras desconfiando da formação da primeira. Falar, escrever e ler estão em áreas diferentes do cérebro. Às vezes, a criança lê e não entende ou ouve e não consegue replicar o que aprendeu ao ouvir. 

Para aprender a escrever é preciso escrever; para aprender a ler é preciso ler. É preciso construir memórias para dar apoio ao processo de alfabetização. Então não seria este o caminho para práticas não presenciais que nos darão apoio ao retorno quando de fato as crianças deverão ser alfabetizadas?

Alfabetização em tempos digitais

Propostas de prática em tempos de pandemia

O que propor então? Como propostas de práticas de alfabetização em tempos de atividades não presenciais…

Nossa discussão será relacionada a práticas de imersão ao contexto de letramento e estratégias que levem as crianças a pensar sobre a relação letra/som, ampliando o conceito de alfabetização para além do domínio do código escrito. Como as crianças estão unicamente com a família como motivador e não substituindo as mediações que só os professores podem fazer, chamaremos atenção para atividades que incentivem a leitura, promovam a reflexão sobre a escrita e despertem a curiosidade e vontade autônoma em escrever.

Consideramos ainda, a importância da memória e da emoção que desencadeiam e impactam na construção de novos conceitos e desenvolvimento de habilidades. Memória é exercício constante que envolve atenção, emoção, concentração, estimulação das vias nervosas do cérebro. Neste sentido, o melhor exercício para memória é LER. E, futuramente, precisamos deste acervo de memória para dar conta do plano de retomada considerando o viés pedagógico e da aprendizagem.

O papel do alfabeto móvel

Propostas de escrita

Vamos destacar a importância da manipulação com as letras e diferentes composições usando materiais de suporte: folhas, galhos, pedras. Incluindo propostas de escrita.

Ao identificar palavras que combinam realçando o som da sequência de letras, as crianças devem escrever estas mesmas palavras com alfabeto móvel. Pois, o fato de “movimentar” as letras para a posição correta da escrita da palavra é uma atividade de alta complexidade e desafiadora neste momento. Ainda que façam por ela, o movimento em si amplia um dos conceitos primordiais de alfabetização: usamos diferentes letras em diferentes posições para escrever diferentes palavras. Segundo MORAES (2019) “A consciência é um fator causal, necessário para o aprendizado da escrita alfabética e um bom preditor do sucesso na alfabetização”.

Escrevendo a rotina de casa

Trata-se da proposta de escrita de sentenças curtas adequadas a faixa etária como registro de momentos especiais vividos em casa para trabalhar a escrita de palavras e exercitar a memória, construindo material de suporte para o retorno às atividades presenciais. 

Abaixo, registro, por um menino de cinco anos, sobre o que comeu no dia anterior para compartilhar com os colegas.

Uma imagem contendo texto

Descrição gerada automaticamente

Ainda que sua família tenha contribuído na escrita (como parece na palavra laranja) sua participação fica registrada criando repertórios de memória. A estrutura da frase ainda é desconhecida pela criança. Porém, pode ser uma mediação do professor para estruturar e incluir os verbos (determinantes no conhecimento da escrita por indicar o movimento). 

Na aula online a professora usa seu registro para “ensinar” a estrutura da frase usando verbos. NOME (da criança) COME PEIXE, LARANJA E UVA. Todas as crianças registram no seu caderno de leitura (indicado para retomada todas as quartas-feiras).

Diário da vida

 Uma proposta baseada em Celéstin Freinet, pensada para atividades não presenciais como exercício da memória e registro das emoções. No diário individual, cada criança registra os melhores momentos deste momento em casa com as famílias para compartilhar com a turma. Usam fotos ou desenhos e escrevem a legenda. 

→ Valorizam e percebem valorizadas as suas experiências, pois ele possibilita organizar vivências, relatar acontecimentos e sentimentos vinculados às mesmas;

→ Torna-se ferramenta para apropriação da linguagem, ao utilizá-la como recurso para refletir sobre o que fazem e produzir suas narrativas;

→ Trabalhar com a aprendizagem da escrita de forma que a linguagem escrita, do desenho e linguagem oral sejam trabalhadas em conjunto – aperfeiçoar e conservar o desejo do diálogo e expressão;

→ Os registros ajudam o professor a ampliar, intencionalmente, as relações das crianças com a linguagem escrita e a expressão constituindo memórias;

→ Registros das crianças no Livro da Vida – documento de comunicação entre escola e família.

Neste contexto de propostas e sugestões de práticas de alfabetização em tempos de ensino remoto, vale ressaltar que o direcionamento e intencionalidades de toda e qualquer atividade deve dialogar com o currículo possível de cada escola e com as possibilidades das famílias. 

Acreditamos ainda que o alcance de alguns dos objetivos e intencionalidades propostas depende fundamentalmente das mediações técnicas realizadas pelos professores. Contudo, oferecer para as crianças contextos em que a leitura e escrita são essenciais e promover práticas voltadas para a reflexão sobre a escrita, ainda que não cumpra seu objetivo final, é nosso foco neste momento em que discutir as possibilidades e refletir sobre o que temos proposto é o melhor caminho.

Outras estratégias podem ser pensadas e planejadas a partir de sugestões como as descritas abaixo. Longe de ser modelos padronizados, mas pensadas como inspiração para novas ideias:

  Adivinhas para responder escrevendo com letras recortadas de revistas e jornais

  Criação de palavras com alfabeto móvel. O alfabeto móvel faz com que a criança pense sobre a escrita, mobilize atividades mentais para formar uma palavra: Vamos inventar palavras com? O fato de inventar palavras tira o foco das crianças pensarem sobre o significante, levando-as a pensar sobre quais letras usar para representar os sons que compõem a palavra.

  Chamada com ficha de nome, pedir a cada criança adivinhar o nome da chamada (ficha de nome mostrada diferente da sua) – aulas online. Depois, mostrar qual palavra pode estar escondida dentro do nome. Ex: MARIANA palavra escondida ANA, MAR

  Pedir às crianças para desenhar (um fato, brincadeira, parte da história) e escrever legenda. Como mediar a escrita? Eleja uma ou duas crianças a cada aula e peça que soletrem as letras para a professora escrever. Depois, peça a todas para escreverem palavras que possam combinar com a palavra principal da legenda.

Ex: desenho da rotina do sábado, a criança escreve: BRINCAMOS DE AMARELINHA E DE BOLA NO CAMPO.

Palavra eleita pela professora: BOLA (orientação para a turma: vamos ver quem cria mais palavras que combinam com a BOLA) escrever em folha branca e mostrar.

  Ditado surpresa: professora mostra uma imagem, crianças escolhem palavras que ajudam a escrever o nome e depois montam com alfabeto móvel. Tirar foto e mandar para a professora apresentar na tela e discutir o que pode mudar na escrita. 

Ex: mostra um PICOLÉ 

Palavra que ajuda a escrever (as crianças escolhem). PIPA, PACOTE, PICADO.

A professora mostra estas palavras na ficha e deixa a mostra. A partir daí segue a sequência conforme explicado acima.

  Criar alfabeto ilustrado. Cada página uma letra. Todos os dias as crianças escolhem uma palavra para escrever e ilustrar, criando um acervo de palavras. Trabalhar a partir das palavras eleitas na semana, por exemplo. Escrevendo outras palavras que rimam ou que estão dentro das palavras.

Documentar é saber olhar as oportunidades e planejar os avanços…

BORBOLETAS (Manoel de Barros)   BorboletaBorboleta

“Borboletas me convidaram a elas.

O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.

Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas…”

Como proposta de documentação e registro das aprendizagens apresentamos um quadro onde os educadores podem registrar as propostas e evidências de aprendizagem das crianças e traçar possibilidades para o retorno às aulas. Garantindo á escola documentação para diálogos com as famílias. 

Fotos: Divulgação

Confira mais textos: https://www.rededeexperiencias.com.br/voce-e-lider

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação. Base Curricular Nacional Comum para Educação Infantil. Brasília, 2017.

FREINET, Celéstin. Livro da vida: uma ideia de Celéstin Freinet, Portal do professor.  Disponível em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=15320 Acesso em: 24.junho.2020.

LIMA, Elvira Souza. Fundamentos da Educação Infantil. São Paulo: Editora Interalia, 2016.

MORAIS, Artur Gomes. Consciência fonológica na Educação Infantil e no ciclo de alfabetização. Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2019.

SOARES, Magda. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Editora contexto, 2016.

SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. 6ª edição. São Paulo: Editora Contexto, 2016.

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