Cadê a escola que estava aqui?

Por Cibele Mendanha /Somos Educação

Tempos de reflexão, incertezas, medos e desafios! A pandemia veio sem pedir licença e não estava no currículo o “como” trabalhar com as crianças em casa junto com as famílias. Embora no discurso escolar a relação família x escola estava estabelecida. E agora, cadê a escola que estava aqui?

Convido ao diálogo sobre as estratégias para Educação Infantil em tempos de isolamento social. Para isso, vale lembrar que não estamos propondo Educação a distância. Mas, atividades não presenciais para serem realizadas pelas crianças em casa com as famílias.

São muitas as reflexões: como as crianças aprendem? Qual o papel do educador da infância no distanciamento das crianças? O que a legislação propõe? Como pensar a educação para crianças em casa sem a mediação do professor? O espaço, a materialidade e o tempo em casa são diferentes da escola, como computar estas variáveis no planejamento? E a documentação pedagógica, como fica?

Contudo, pensar em estratégias que fortaleçam o vínculo afetivo entre escola e família, estratégias que mantenham a curiosidade das crianças, despertem o sabor da infância e criem espaços de produção simbólica, pode ser uma boa ideia!

Bom momento para estreitar vínculo
Bom momento para estreitar vínculo

Sobre a escola da infância

Muitas são nossas incertezas do que propor para as crianças em casa junto com sua família. O que podemos ensinar a distância, o que a família “dá conta” de ensinar e desenvolver. Penso que nossa reflexão vai para o outro lado da moeda: o que é a Educação Infantil, quem é a criança e como elas aprendem? Talvez um momento inesperado possa ser exatamente o tempo que temos para conhecer e construir tantos conceitos ainda em aberto…

As Diretrizes Curriculares Nacionais – DCNEI/09 – nos aponta o conceito de currículo e de criança que, talvez, deveríamos ter pensando mais ao elaborar nossos currículos e planos de aula… nunca é tarde! Agora é hora!

O Currículo na Educação Infantil é um conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico. Tudo isso, de modo a promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade. (DCNEI:2009:12) Podemos partir da reflexão sobre o que a escola se propõe a realizar dentro deste conceito de currículo. Seria um caminho? Convido e instigo a este diálogo!

A construção do saber infantil

Práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças. Quais seriam então estas práticas e que experiências as crianças trazem? O papel da escola não é da sistematização de conhecimentos escolarizados, precisamos manter a curiosidade das crianças acesa.

Curiosidade: o caminho para o aprendizado infantil
Curiosidade: o caminho para o aprendizado infantil

Se não garantimos o conhecimento sobre os animais mamíferos como classificação, garantimos a curiosidade latente das crianças em descobrir o motivo de o gato mamar na mamãe dele diferente de alguns outros animais. Como o filhote da baleia mama se está debaixo d’água, por exemplo. Este é nosso papel, desencadear curiosidades e vontade de descobrir o mundo.

A proposta de Parecer sobre as atividades não presenciais orienta que: “Para realização de atividades pedagógicas não presenciais, sugere-se que as instituições de Educação Infantil possam elaborar orientações e sugestões aos pais ou responsáveis sobre as atividades que possam ser realizadas com seus filhos durante o período de isolamento social.”(CNE/MEC:2020:07)

Neste contexto, a orientação pedagógica para a realização das atividades em casa torna parte do processo de planejamento dos professores. Entender o objetivo de cada atividade, a forma de realizar, bem como os materiais necessários definem a qualidade da aprendizagem. Como dito anteriormente, as propostas de atividades devem dar conta de aprendizagens possíveis no contexto de casa, considerando o tempo, os espaços e a materialidade.

Atividades de aprendizagem possíveis no contexto de casa
Atividades de aprendizagem possíveis no contexto de casa

Além disso, a realização de atividades do caderno didático deve ser organizada e planejada pelos professores. Isso, atendendo aos respectivos objetivos de aprendizagem, quando possível, acompanhada de orientação por meios digitais sejam eles quais for: áudios, vídeos, aulas online, dentre outros. Deve-se levar em consideração o entendimento tanto das famílias como da própria criança. É a voz do professor chegando até o contexto de casa garantindo compreensão, entendimento e aprendizagem.

O que propor então? Em tempos de tecnologia como aliada…

Primeiramente, precisamos pensar na infância, talvez na infância que tivemos e vivemos nossas experiências. É ser criança de novo… Do que gostávamos, o que aprendíamos com nossas brincadeiras e nossas vivências!

As crianças aprendem brincando de casinha, dormindo, tomando banho, catando coisas no quintal, tentando fazer avião e barco de papel, ouvindo histórias! Os aparatos tecnológicos são apenas um meio pelo qual, em fase de distanciamento, podemos chegar até as famílias. O papel da família não mudou, nem tampouco vamos transformar pais e famílias em pedagogos e professores. Esse papel é da escola, que aguardará a volta dos pequenos.

Contudo, pensar em estratégias que fortaleçam o vínculo afetivo entre escola e família, que mantenham a curiosidade das crianças, despertem o sabor da infância, criem espaços de produção simbólica pode ser uma boa ideia.

Que tal algumas sugestões?

  • A MALA DA ESCOLA: as crianças podem, em casa, com as famílias, fazer registros e produções para narrar à escola as vivências interessantes em tempos de quarentena. Uma produção de final de história (contada pela professora); um desenho de uma brincadeira com a família; uma receita preparada com a mãe; uma história inventada; um relato de cuidado com uma planta que foi plantada junto com os irmãos e cuidada até o tempo de retorno a escola…
Desenhos podem narrar vivências nesses tempos

Todas essas iniciativas podem ser registros significativos no retorno à escola. Todo este material guardado numa caixa, mala, pasta ou sacola como forma de registrar as vivências em casa, sob orientação da professora, ao final de cada semana. Estes registros são parte de uma avaliação que, posteriormente, junto à avaliação diagnóstica presencial na escola, fará o contraponto para direcionar a continuidade na escola. Registramos por meio destas atividades as evidências de aprendizagem nas construções em casa, orientadas pela professora.

  • ESPAÇO DE PRODUÇÃO SIMBÓLICA: as famílias podem ser orientadas pela escola a criar espaços dentro de casa para ler histórias, cantar músicas, desenhar, brincar…

Nestes espaços, as crianças podem simbolizar seus medos, angústias, desafios e até mesmo a “felicidade” por estarem a maior parte do tempo com seus pais. É um espaço de construção do simbolismo inerente ao desenvolvimento e crescimento das crianças.

Outras sugestões

  • ROTINA: A criança se sente segura diante da sua rotina de casa e da escola. De repente, a rotina da escola sai de cena e a de casa se vê conturbada. Criar rotinas para as crianças contribui com sua segurança e organização diária. Orientar às famílias sobre a construção de uma rotina pode ser também uma estratégia.

Numa folha de papel, a criança pode desenhar ou trabalhar com recortes e organizar seus dias em casa. Brincar de massinha, contar histórias, desenhar, ouvir a playlist de músicas da escola enviada pela professora, assistir a um filme interessante, fazer sua higiene pessoal ao acordar e antes das refeições, dormir …. Fazem parte da forma de aprender das crianças e criam espaços e tempos significativos na rotina delas.

  • HORA DA HISTÓRIA: A literatura infantil traz para as crianças momentos de ludicidade, alegria, entusiasmo e criação de vínculos afetivos e simbólicos. Atualmente, temos disponíveis nas diversas mídias boas literaturas que podem ser lidas e exploradas. Outro dia, uma criança confidenciou que ao ler a história “O bonequinho doce” resolveu ir para a cozinha com a mãe e fazer biscoitos em formato de bonecos. Compartilhou a receita com a professora para que pudesse socializar com os demais colegas. A cozinha é um laboratório de ciências para as crianças.
  • BRINCADEIRAS: Desafio quem não se lembra das brincadeiras da infância: amarelinha, esconde-esconde, 7 marias, coelhinho sai da toca, passa anel e tantas vivências interessantes. Este espaço pode ser da família em casa. Registrar a brincadeira em fotos e desenhos, por exemplo, são oportunidades de aprendizagem! A fita crepe vira um recurso possível para riscar a amarelinha no tapete ou no chão da sala. Nós, da escola, temos condições de usar a tecnologia para lembrar destas brincadeiras, além de sugerir outras que as crianças brincam na escola.
Amarelinha, uma atividade muito divertida para a família
Amarelinha, uma atividade muito divertida para a família

Um lembrete…

Neste contexto de propostas e sugestões, vale ressaltar: o direcionamento e intencionalidades de toda e qualquer atividade deve dialogar com o currículo. Mais além, deve ser possível de realizar nas atividades não presencias. Possível por acreditar que a garantia de alcance de alguns dos objetivos e intencionalidades propostas dependem fundamentalmente das mediações técnicas que cabem aos professores. Contudo, fomentar o currículo proposto para a Educação Infantil é nosso caminhar neste momento de pandemia.

E as crianças, em tempos de pandemia…

Elas sabem, percebem e conhecem o que está acontecendo. São curiosas e observadoras sobre o ambiente e as pessoas. Cadê a escola que estava aqui? Quem é este “monstro” que não vejo, mas é perigoso? Ele levou a escola?

Conversar com elas sobre tudo é fundamental e importante! Talvez, as crianças esperem também da escola, da professora, uma palavra sobre isso. Um diálogo saudável e verdadeiro sobre os cuidados necessários e verdadeiros. Um dia elas voltam… não se sabe quando, mas tudo vai acabar. Porém, o posicionamento de hoje constrói o futuro. Precisamos construir o futuro!! Vídeos, áudios, mensagens das professoras conversando abertamente sobre o contexto, sobre a preparação da escola para este retorno. Igualmente importante é dialogar sobre a importância de estar com a família, a necessidade de acreditar e de se cuidar. Tudo isso faz parte das “aprendizagens” oportunizadas às crianças.

As vivências construídas com as famílias, em casa, são memórias e narrativas que farão parte dos currículos da escola posteriormente. A volta que aqui chamarei de readaptação ao contexto escolar precisará destas vivências para continuar seu propósito. Pois, o currículo da escola nasce e se estabelece com as relações da vida cotidiana articulando vivências, experiências e cultura.

Não há receita pronta

Por fim, não temos a intenção de oferecer receitas, nem formas de responder aos desafios. São propostas pensadas e relacionadas a um conceito vivo de infância que se estabelece a partir da cultura da infância; a uma concepção de currículo diferente de uma lista de conteúdos para serem sistematizados. Isso, vamos deixar para o ensino fundamental e médio!

Tempo de (re)construir a educação da infância
Tempo de (re)construir a educação da infância

Convido todos os educadores da infância a pensar sobre a Educação Infantil, seu currículo e sobre a concepção de criança como ser de cultura. Vamos (re)construir a educação da infância!! Vamos potencializar as aprendizagens das crianças desenvolvendo em casa as vivências possíveis de serem narradas. Será sim com mediações da família, mas dentro do papel que lhe cabe.

Fotos: Unsplash

Referências bibliográficas

LIMA, Elvira Souza. Fundamentos da Educação Infantil. São Paulo: Editora Interalia, 2016.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Curricular Nacional Comum para Educação Infantil. Brasília, 2017.

BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil. Brasília, 2009.

BRASIL. Ministério da Educação. Proposta de Parecer sobre reorganização dos calendários escolares e realização de atividades pedagógicas não presencias durante o período de pandemia Convid-19. Brasília, 2020.

EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George. As cem linguagens da criança: a abordagem de Reggio Emilia na educação da primeira infância. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999

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Um comentário em “Cadê a escola que estava aqui?

  • 17 de junho de 2020 em 09:16
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    Ótima oportunidade para se resgatar a função da escola infantil, com seus reais objetivos.

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