Ensino Híbrido: o que a pandemia nos ensinou sobre a educação?

Por Letícia Araújo / Somos Educação

A pandemia do coronavírus mudou a forma como milhões de pessoas em todo o mundo são educadas. Em poucas semanas, após o decreto de suspensão das aulas presenciais, implantou-se uma nova forma de ensinar e aprender nas escolas. Todos, de maneira inédita, fomos colocados como aprendizes na busca de soluções para o enfrentamento de um contexto que alterou grandemente o nosso cotidiano. 

Inicialmente, as escolas buscaram operacionalizar os recursos tecnológicos para a continuidade do calendário escolar por meio das aulas remotas. Foi um período curto mas intenso, que envolveu cadastro dos professores, pais e alunos da instituição, assim como a proposição de formação para os professores na usabilidade das ferramentas adotadas. Foram muitas mudanças, que também atingiram todo o planejamento pedagógico.  

Após mais de cinco meses com a exclusividade das aulas remotas, agora é oportuno pensarmos na educação pós-pandemia e nas propostas de planejamento para a retomada das aulas presenciais. Por extrema necessidade, vimos os educadores e alunos ganharem competências tecnológicas que demorariam décadas em tempos “normais”. Agora, para enfrentarmos o novo momento, vamos desfrutar dos ganhos adquiridos nas aulas remotas. 

E quando cada instituição escolar, respaldada pelos decretos estaduais e municipais, retomarem as aulas presenciais, alguns contextos serão levados em consideração para o planejamento. Muitos alunos não retornarão às aulas presenciais, num primeiro momento, por pertencerem a grupos de risco ou residirem com pessoas desse grupo. Teremos também de levar em consideração o espaço físico da escola, assim como a insegurança de muitas famílias para o retorno presencial. Assim, é provável que a situação demore um bom tempo para atingir a totalidade dos alunos no presencial. 

Experiências tecnológicas no ensino

Diante disso, as escolas precisarão encontrar uma alternativa para que os alunos que não podem retornar às aulas continuem no processo de estudos. O ensino híbrido está nos holofotes da educação como uma alternativa que atenderá a esse novo contexto: uma parte da turma na escola e outra em casa. 

Aspectos favoráveis para a implantação do Ensino Híbrido

A experiência das aulas remotas trouxe aprendizados que serão muito favoráveis à implantação do ensino híbrido em sala de aula no cenário pós-pandemia:

  • Aperfeiçoamento da equipe docente: 

Os professores estão bem mais preparados digitalmente do que estavam antes do isolamento social, pois aprender a usar tecnologia deixou de ser uma opção e se tornou a única saída. As dificuldades iniciais de aprender a lidar com recursos digitais – que pareciam gigantes e intransponíveis – agora gradualmente já estão sendo superadas, e a cada dia eles aprendem mais. 

O desafio que os professores terão pela frente não será maior do que o de agora, pois o futuro já é bem mais previsível. O momento seguinte será um passo a mais em uma caminhada que já está sendo trilhada agora. Quanto mais aprendizado for tirado deste cenário, mais tranquilo será o próximo.

Com o home office, professores ficaram mais preparados digitalmente
  • Novos paradigmas:

Algumas escolas não achavam válido trocar o papel pelo digital em seus processos internos e muito menos nos processos pedagógicos. Uma dificuldade que ultrapassava a sala de aula e estava presente inclusive na aquisição das agendas físicas para alunos. Porém, com a chegada da pandemia, as escolas, em sua grande maioria, se renderam aos recursos digitais, desde a realização das reuniões de pais até a execução de seminários entre alunos. 

As escolas só conseguiram dar continuidade aos seus processos com a presença da tecnologia e, assim, precisaram quebrar seus próprios paradigmas. Agora que a presença do digital ocupa lugar nas escolas, dificilmente elas retornarão à mesma rotina de antes da pandemia. Dessa forma, há uma grande oportunidade para a aplicação do ensino híbrido em sala de aula. 

  • Adequação das famílias:

Antes da pandemia era comum que alguns familiares pouco soubessem sobre as atividades escolares dos seus filhos, agora que a sala de aula está dentro das casas, tudo acontece em frente a eles. As rotinas de todos na casa sofreram grande impacto, e as famílias dos alunos tiveram de organizar espaços de estudos propícios para a aula online, que exige ainda mais concentração. 

As famílias também tiveram de se habituar a um contato com a escola mediante os meios virtuais, pois os encontros físicos ou recados na agenda física deixaram de fazer parte da rotina. Conseguiram também conciliar as rotinas, ao combinar ambientes e horários com os filhos / estudantes diante de todos os meses de aprendizado e adaptação. Todas essas experiências nos lares darão condições para o enfrentamento do momento seguinte, com a inserção do ensino híbrido em sala de aula.

Adaptação à aula online em casa

A sala de aula “híbrida”

Há diferentes escolhas a serem feitas no retorno às aulas que consideram parte dos estudantes presentes fisicamente nas escolas e parte deles presentes em um ambiente virtual, aprendendo remotamente, e todas elas oferecem pistas do futuro que se pretende construir em uma instituição, ou na Educação. Veja a seguir duas possibilidades para a sala de aula “híbrida”: 

A junção do online com o presencial: Neste modelo, os alunos recebem a mesma aula, pois o professor expõe o conteúdo para os alunos que estão em sala de aula e para os que estão em casa. Os alunos, independentemente do espaço físico onde se encontram, recebem a mesma aula. A junção do remoto e do presencial nesse formato considera o professor como centro do processo; e o conteúdo a ser exposto é o foco, e a entrega é a mesma para os alunos. Para os que estão em casa, mesmo que impactados pela não participação física na sala de aula, a proposta é acompanhar e interagir com o professor utilizando as ferramentas digitais. 

O online para uma experiência presencial: Nesse formato, o planejamento considera os alunos em diferentes ritmos e aprendizagens. Temos o estudante no centro do processo, o professor com o papel mediador, a tecnologia como um suporte que possibilita o protagonismo dos estudantes e o desenvolvimento da cultura digital. Os momentos presenciais são utilizados para a troca de ideias, para a retomada da relação humana na vivência de modelos da metodologia ativa como resolução de problemas, instrução entre pares, problematização, entre outros. 

Percebe-se que o segundo formato carrega, em suas práticas, a essência do termo, já que o ensino híbrido é uma abordagem que está inserida no rol de metodologias ativas. Isso quer dizer que há uma concepção de aluno protagonista, de aulas que valorizam o aprender a aprender e da identificação das necessidades dos estudantes.

Esporadicamente, podemos considerar o digital como um recurso para a exposição de algum conteúdo, mas as tecnologias digitais precisam ir além desse papel, oferecendo também possibilidade de interação e acompanhamento das aprendizagens individuais ou em pequenos grupos.

O formato de ensino híbrido pode ser aplicado por modelos sustentados, aqueles que são possíveis com todos os alunos presentes em sala de aula, ou disruptivos, que consideram que nem todos os alunos estarão na escola. Dentre os modelos sustentados, podemos citar a Rotação por Estações, Laboratório Rotacional e Sala de Aula Invertida. Para os modelos disruptivos, temos a possibilidade de aplicação da Rotação Individual, À La Carte e Virtual Enriquecido. 

Para a escolha do melhor modelo, é oportuno refletir sobre as aulas presenciais e as aulas remotas no que se refere à função de cada momento. As aulas assíncronas apresentam excelente espaço para o “expositivo” e podem se transformar em um repositório de explicações sobre conceitos, podendo essas aulas serem reaproveitadas na recuperação das lacunas que, eventualmente, alguns alunos apresentarão.

O momento síncrono, no online ou o presencial, não devem ser espaço para o expositivo, mas para o contato com o humano, com a troca entre pessoas, com luz para questões tão relevantes como empatia, argumentação, pensamento crítico. A possibilidade de resolver problemas e colocar em ação os aprendizados que foram construídos em uma exposição prévia dão mais sentido ao que denominamos como ensino híbrido, que é mais do que a união do presencial com o online, mas é a possibilidade de personalização de aprendizagens.

Avaliação digital: novos métodos para os professores 2
Ferramentas digitais e o aluno como protagonista

Independente do modelo a ser adotado, é evidente que a pandemia trouxe consigo a necessidade premente de professores, escolas e gestores educacionais reavaliarem as suas próprias concepções de ensino, diante da necessidade de se colocar o aluno, mais do que nunca, de forma ativa e na centralidade do processo educativo.

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Fotos: Divulgação / Unsplash

REFERÊNCIAS

BACICH, L.; MORAN. J. (Org.). Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018.

BACICH, L. A sala de aula “híbrida”. Inovação na educação. São Paulo, 3 ago.  2020. Disponível em: https://lilianbacich.com/2020/08/03/a-sala-de-aula-hibrida/. Acesso em: 18 ago. 2020.

BACICH, L. Ensino híbrido: muito mais do que unir aulas presenciais e remotas. Inovação na educação. São Paulo, 6 jun. 2020. Disponível em: https://lilianbacich.com/2020/06/06/ensino-hibrido-muito-mais-do-que-unir-aulas-presenciais-e-remotas/. Acesso em: 18 ago. 2020.

DIESEL, A.; SANTOS BALDEZ, Alda Leila; NEUMANN MARTINS, Silvana. Os princípios das metodologias ativas de ensino: uma abordagem teórica. Revista Thema, [S.l.], v. 14, n. 1, p. 268-288, fev. 2017.

MORAN, J. M. Educação híbrida. In: BACICH, L.; TANZI NETO, A.; TREVISANI, F. D. M. Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação. Porto Alegre: Penso, 2015.

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