Escola digital e as habilidades socioemocionais

Por Cibele Mendanha / Somos Educação

O contexto da escola digital e a saúde do professor

Diante de todo esse cenário de pandemia, que viabiliza um contexto em que tudo parece se diluir tão rapidamente, tudo parece tão difícil e tão diferente! Os professores são desafiados a lidar com a tecnologia e fazer dela uma aliada; a se adaptarem a ferramentas virtuais; a reverem suas metodologias de ensino; e a organizarem o tempo de trabalho e de casa no mesmo espaço. Tudo isso nos faz olhar para a importância de cuidar da saúde física e mental, ao adotarmos hábitos diários que nos fortaleçam e nos mantenham física e emocionalmente em equilíbrio.

Professores devem investir em hábitos que garantam saúde física, mental e emocional

A Organização Mundial da Saúde (OMS) esclarece que saúde não significa apenas a ausência de uma doença; ela “é um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Da mesma forma, destaca que saúde mental não implica somente a ausência de transtornos ou deficiências mentais; “é um estado de bem-estar em que um indivíduo realiza suas próprias habilidades, pode lidar com o estresse normal da vida, pode trabalhar produtivamente e é capaz de contribuir com sua comunidade”.

Criar momentos de descontração, organização das atividades físicas, rotina de alimentação e sono tranquilo é um dos muitos desafios que os professores têm hoje. Rever sua rotina diária para que o cansaço, a ansiedade, o estresse, a alimentação inadequada não atuem na sua saúde é urgente neste contexto. É importante responder à questão: Quanto a rotina do seu trabalho remoto tem influenciado o meu emocional?

A inteligência emocional não é algo genético, mas sim aprendido!

Bar-On (2002) interpretou que o conceito inicial de inteligência emocional proposto por Salovey e Mayer envolvia a autopercepção e a empatia e se referia à capacidade de utilizar informações emocionais para guiar a cognição e o comportamento. O autor considera que o conceito de inteligência emocional se origina das contribuições de Gardner (1994), as quais teorizavam sobre o acesso à vida emocional internalizada, feita pelo próprio indivíduo e concebiam que a classificação e diferenciação dos sentimentos em “códigos simbólicos” forneciam elementos para guiar o comportamento.

Para Daniel Goleman (1995), o uso exacerbado da tecnologia limita mais a interação humana e, consequentemente, a empatia que necessitamos para colocar as nossas emoções em ação. O distanciamento gerado é prejudicial para o desenvolvimento humano.

Com a atual pandemia, houve uma quebra momentânea no convívio social, o que afeta os laços de afeto e o exercício da empatia pela suspensão de ações de comunicação social direta. Essa é uma experiência difícil para qualquer pessoa.

A inteligência emocional exige do ser humano desenvolvimento de habilidades que levam à maturidade, para chegar a um nível elevado de aprendizagem emocional. Caracteriza o comportamento padrão que deve garantir relacionamentos saudáveis com os outros (empatia), controle das suas emoções (autogestão), consciência maior de como se sente em relação às suas próprias emoções (autoconsciência) e capacidade de se automotivar, sendo capaz de afastar seu espírito negativo.

Como alcançar esse patamar

Para se chegar a esse patamar de inteligência emocional, é preciso exercitar o corpo e a mente. Isso, por meio de exercícios e hábitos rotineiros, como praticar atividades físicas, dançar, caminhar, ouvir música. Sejam quais forem essas atividades e hábitos, elas precisam causar um bem-estar naquele que as pratica.

Corpo e mente sadios: o caminho para a inteligência emocional

Já a situação de medo, estresse gera no cérebro a liberação de substâncias químicas negativas, que podem levar à depressão, à ansiedade e a outros males, o que pode condicionar toda a saúde física. Dessa forma, precisamos contrabalançar esses processos químicos com as atividades e hábitos que nos fazem bem, para que não haja sobrecarga química. Ela leva ao adoecimento físico e emocional.

Assim, pensar na saúde mental é como executar uma música bem tocada. Se não houver harmonia entre todos os instrumentos, se a interação não estiver alinhada, a melodia sairá desafinada aos ouvidos. Nesse arranjo musical entre vida profissional e pessoal, nós somos o maestro que rege todo esse cenário. Pensando nisso, elaboramos um checklist com atividades e hábitos rotineiros que contribuem com o planejamento do seu dia a dia, a fim de desenvolver a harmonia e o autoconhecimento, seja na escola, seja no trabalho domiciliar, durante o isolamento social. 

Checklist pessoal: a quantas anda nossa inteligência emocional

“Uma longa viagem começa com um único passo”.

Lao-Tsé

A seguir, elencamos algumas atividades e hábitos que fortalecem nosso dia a dia e ajudam a preservar nossa saúde física e emocional. Marque aqueles que considera primordiais e que tenha realizado periodicamente. Aqueles em que ainda precisa investir, marque de outra cor e planeje quando e como vai começar a realizá-los. Invista em você!

  • Tenho sentimento bom em relação ao meu trabalho, ele me gratifica!  (O valor que você atribui, não os outros ou a escola.)
  • Tenho dormido tranquilamente, o meu sono me satisfaz e faz com que eu acorde tranquila para um novo dia. (O cérebro precisa de pausa!)
  • Meu espaço está organizado para realizar meu trabalho em casa. Não misturo ambiente de refeições, lazer com meu material de trabalho.
  • Tenho realizado atividade física diariamente: Ouvir música / cantar/ dançar com movimentos coreografados. (Responsáveis pela liberação da dopamina e serotonina – saúde cerebral).
  • Meu horário de refeição está sendo respeitado, sem atender o telefone, resolver problemas ou demandas de última hora.
  • Estabeleço um tempo diário destinado a “cuidar de mim” todos os dias. O motivo de estar em casa não quer dizer que não precisamos nos cuidar. (Coloque sua melhor roupa, vista-se bem para você mesmo(a)!)
  • Tenho tempo para curtir e cuidar da minha família. Cultivo relacionamentos que me fortalecem.
  • Dialogo com meus colegas educadores trocando ideias, angústias, vitórias, acertos, minhas melhores ideias, fora do horário destinado a reuniões e encontros da escola.
Checklist pessoal ajuda a organizar e preservar nossa saúde física e emocional

Construindo paraquedas coloridos: um mundo melhor e mais saudável

Krenak (2019) sugere que, para “adiar o fim do mundo”, é necessário abrir a mente e discutir seriamente o futuro da espécie em harmonia com a natureza. Assim, abandona de vez a exploração predatória, bem como amplia os diálogos entre os povos.

É inspirado pela sabedoria dos povos indígenas que sugere a adoção de uma visão positiva da educação como a saída possível para o cinzento do tempo que estamos vivendo.

É um momento delicado e importante. É a Educação que se coloca como o espaço de diálogo mais amplamente acessível a toda a população mundial. A metáfora que nos guia é, como convidou Krenak, “abrindo paraquedas coloridos.”

Nosso desafio, no momento, é construir paraquedas coloridos! Sendo as nossas melhores ideias, as emoções, os sentimentos, a empatia!

“[…] A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair.

Então por que estamos grilados?

Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica

e criativa para construir paraquedas coloridos.

Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o

cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos.”

Ailton Krenak

Fotos: Unsplash

Confira mais textos: https://www.rededeexperiencias.com.br/voce-e-lider

Referências

GOLEMAN, D. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1996.

GONZAGAL, A. R.; MONTEIRO, J. K. Inteligência emocional no Brasil: Um Panorama da Pesquisa Científica.Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 27 n. 2, p. 225-232, abr.-jun. 2011.  Disponível em:https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722011000200013. Acesso em: 24 ago. 2020.

LIMA, E. S. Currículo emergencial para a educação durante e pós a pandemia.Diálogos, 2009. Disponível em: https://www.dialogosviagenspedagogicas.com.br/ebook-curriculo-emergencial-para-a-educacao-durante-e-apos-a-pandemia. Acesso em: 27 ago. 2020. 

SOMOS EDUCAÇÃO. Saúde mental e bem-estar dos professores: Somos Educação, 2020. Arquivo digital.

GONZAGAL, A. R.; MONTEIRO, J. K.. Inteligência emocional no Brasil: Um Panorama da Pesquisa Científica.Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 27 n. 2, p. 225-232, abr.-jun. 2011.  Disponível em:https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722011000200013. Acesso em: 24 ago. 2020.

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