Metodologias Ativas: como engajar os alunos em tempos de pandemia

Por Letícia Araújo/ Somos Educação

Com a suspensão das aulas presenciais por tempo indeterminado, para evitar a propagação do novo coronavírus, as escolas se viram diante de uma situação excepcional e emergencial. Muitas optaram por oferecer aulas remotas com o intuito de manter o vínculo com as famílias e alunos ministradas pelos próprios professores das turmas. Os docentes passaram a fazer uso exclusivamente de ferramentas tecnológicas para garantir o cumprimento do programa de cada segmento e componente curricular. 

Diante desse novo contexto, os professores tiveram que rapidamente gerar conteúdo para postar nas salas virtuais por meio da plataforma adotada pela escola. Ocorre que, ao fazer uso de ferramentas virtuais para transmitir as aulas, há uma grande tendência de o professor adotar estratégias didáticas mais tradicionais para a produção desse conteúdo – explanação teórica seguida da solicitação de realização de atividades/exercícios. 

Alunos durante isolamento social precisam de motivação!

Daí surge a necessidade de tornar as aulas remotas mais motivadoras com uma maior qualidade de interação para proporcionar uma aprendizagem mais efetiva. E para tanto, acredita-se que as Metodologias Ativas, também em ambientes virtuais, colabora com a manutenção do engajamento dos alunos e potencializa a aprendizagem. 

As metodologias ativas e seus princípios

No contexto atual, com a divulgação aberta de matérias através da internet, podemos aprender ativamente diante do conhecimento combinando equilibradamente atividades, desafios e informação de maneira contextualizada. 

Com as aulas remotas, as estratégias que privilegiam abordagens mais tradicionais proporcionam um maior distanciamento entre aluno e conhecimento. As crianças e adolescentes em ambiente domiciliar já estão mais propensos a distrações no momento do estudo, e por isso as estratégias que coloquem o aluno como centro do processo são mais eficazes. 

Diante disso, as metodologias ativas podem compor o planejamento do professor e são alternativas essenciais para garantir a apropriação dos conhecimentos, mantendo o estudante em permanente contato com a instituição de ensino durante este período de afastamento ao convívio social.

Para elucidar o que se  se entende por uma abordagem pautada em metodologias ativas de ensino, apresenta-se a figura a seguir, que sintetiza seus principais princípios: 

FONTE: DIESEL, Aline; SANTOS BALDEZ, Alda Leila; NEUMANN MARTINS, Silvana. Disponível em: <http://revistathema.ifsul.edu.br/index.php/thema/article/view/404/295>. Acesso em: 05 maio. 2020 (fragmento)

Metodologias Ativas no planejamento do professor 

É certo que as escolas de Educação Básica, no Brasil, não tem experiência com aulas remotas/online e por isso não temos referências de pesquisas com dados sobre quais ações são mais produtivas para alunos nesse contexto de isolamento social.  Mas acreditamos, que assim como já acontece no presencial, a aprendizagem ativa pode ser o caminho para envolver crianças e adolescentes em uma experiência significativa.

A primeira opção acionada pelos professores para transferirem suas aulas para o ambiente virtual foram as produções de videoaulas, uma solução apresentada como medida imediatista. O que intencionamos é ir além das aulas expositivas e propor estratégias que envolvam o estudante na construção do conhecimento por meio das Metodologias Ativas. 

A primeira opção indicada é a  Metodologia da Problematização em que o estudante tem uma postura ativa em relação ao seu aprendizado numa situação prática de experiências, por meio de problemas que lhe sejam desafiantes e lhe permitam pesquisar e descobrir soluções, aplicáveis à realidade. Essa metodologia é dividida em 5 etapas: 

  1. Observação Da Realidade : Os alunos são orientados a olhar atentamente e a registrar o que perceberem sobre a parcela da realidade em que aquele tema está sendo vivido ou acontecendo (Post de rede social, conversa no WhatsApp, manchete de Jornal impressa e online, tirinha, vídeos dentre outros). Tal observação permitirá identificar dificuldades, carências, discrepâncias, de várias ordens, que serão transformadas em problemas, ou seja, serão problematizadas. Essa etapa pode ser disponibilizada em aula assíncrona em que o professor separa as fontes e disponibiliza para o aluno observar e em seguida o aluno deve enviar uma frase com a identificação do problema observado. O professor de posse de todas as observações dos alunos, agenda uma aula síncrona via Hangout para a apresentação dos problemas identificados. Em seguida deve propor a redação de um único problema para a realidade observada, como uma síntese dessa etapa que passará a ser a referência para todas as outras etapas do estudo. 
  2. Postos-chave: Os alunos são levados a refletir primeiramente sobre as possíveis causas da existência do problema em estudo. Por que será que esse problema existe? A partir dessa análise reflexiva, os alunos são estimulados a uma nova síntese: a da elaboração dos pontos essenciais que deverão ser estudados sobre o problema, para compreendê-lo mais profundamente e encontrar formas de interferir na realidade para solucioná-lo ou desencadear passos nessa direção. Podem ser listados alguns tópicos a estudar, perguntas a responder na mesma aula síncrona que elaborou o problema.  São esses pontos-chave que serão desenvolvidos na próxima etapa.
  3. Teorização: Essa é a etapa do estudo, da investigação propriamente dita. As informações obtidas são tratadas, analisadas e avaliadas quanto às suas contribuições para resolver o problema. O professor deve selecionar diferentes fontes bibliográficas, vídeo, artigo, charge/tirinha, reportagem que estejam relacionados aos Pontos-chave elencados na aula anterior. Essas fontes devem ser disponibilizadas para os alunos através de aula assíncrona e o aluno deve destacar informações importantes em cada fonte. 
  4. Hipóteses de Solução: Todo o estudo realizado deverá fornecer elementos para os alunos, crítica e criativamente, elaborarem as possíveis soluções. O que precisa acontecer para que o problema seja solucionado? O que precisa ser providenciado? O que pode realmente ser feito? Nesta metodologia, as hipóteses são construídas após o estudo, como fruto da compreensão profunda que se obteve sobre o problema, investigando-o de todos os ângulos possíveis. Para a realização dessa etapa, sugerimos que o professor disponibilize um fórum de discussão para que os alunos proponham possíveis soluções para o problema. 
  5. Aplicação à Realidade: Momento para trocar informações e organizar o conhecimento adquirido, aplicam ou propõem intervenções na realidade e socializam o resultado para outros sujeitos.  Essa etapa pode ser realizada via Hangout em que o professor expõe as principais informações coletadas no processo e propõe uma aplicação na realidade do que foi estudado. Os alunos podem postar via rede social da escola um vídeo ou post produzido e alinhado com o conhecimento adquirido nesse processo.

Metodologias ativas em tempos de isolamento social

A segunda opção muito difundida é a Sala de Aula Invertida em que todas as suas etapas podem ser realizadas por meio de ferramentais digitais. Essa metodologia pode ser dividida em três principais momentos: a preparação dos alunos, a atividade principal e a sistematização. 

  • Para a Preparação dos Alunos: essa etapa pode ser realizada por Videoaulas em que o professor explica alguns conceitos para os alunos ou com Vídeos da internet como o do YouTube. Os Podcasts com conteúdos em áudio sobre diferentes temas disponíveis que usam linguagem descontraída e acessível podem ser também uma ótima opção. Os textos e/ou imagens também são uma importante fonte de informação.
  • A Atividade Principal:  Esse momento pode ser realizado por um debate on-line através de uma videochamada com os alunos para discutir o que foi estudado. Os Hangouts são uma ótima alternativa. Outra estratégia é a elaboração em grupo em que os estudantes produzem (em texto, apresentações, vídeo etc.)  e podem fazer uso dos recursos do Google Drive, que permitem a diversas pessoas incluir arquivos e os editar simultaneamente. 
  • A Sistematização: Os Quizzes podem ser uma ótima opção para que os estudantes finalizem o estudo. Pode ajudar a consolidar o que foi discutido e o professor pode usar o Hangout para esse fim. 

A combinação de aprendizagem por desafios, problemas reais, jogos, com a aula invertida é muito importante para que os alunos aprendam fazendo, aprendam juntos virtualmente. Há muitas possibilidades, inclusive a de reinventar, usar etapas de uma estratégia associada a outras já existentes. As tecnologias permitem o registro, a visibilização do processo de aprendizagem de cada um e de todos os envolvidos. E depois que tudo isso passar, teremos professores mais criativos, resilientes e, sobretudo, encorajados para viver o pós-Covid 19. 

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Fotos: Unsplash

REFERÊNCIAS:

BACICH, L.; MORAN. J. (Org.). Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem téorico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018.

BERBEL, N.A.N. (org.). Metodologia da Problematização. Fundamentos e Aplicações. Londrina: UEL, 1999.

DIESEL, Aline; SANTOS BALDEZ, Alda Leila; NEUMANN MARTINS, Silvana. Os princípios das metodologias ativas de ensino: uma abordagem teórica. Revista Thema, [S.l.], v. 14, n. 1, p. 268-288, fev. 2017.

MORAN, J. M. Mudando a educação com metodologias ativas. 2013. Disponível em: <http://www2.eca.usp.br/moran/wp-content/uploads/2013/12/mudando_moran.pdf>. Acesso em: 06 maio 2020.

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